amar-te era um desassossego. tanto estavas sentado na cama, como em pé encostado ao guarda-roupa. os meus olhos tremiam de tanto te procurar.
nunca pensei perder-te, porque nunca pensei que fosse possível que tu te fosses embora. tem piada, é como se costuma dizer, "só nos apercebemos do que tínhamos, quando o perdemos", e aqui estou.
não é que esteja triste, deprimida, ou nada que se pareça. já se passou tanto tempo, e nem uma lágrima derramei. não é que não gostasse de ti, ou que goste demasiado, simplesmente deixei de me importar.
se calhar fizeste aquilo que eu nunca seria capaz de fazer. foste forte, e tão cobarde. saíste de cabeça baixa, e sabendo que nunca mais ias voltar. saíste sozinho, vazio, e a amar-me de coração pleno. e sim, eu vi-te ir embora, e deixei. não é que não te queira, e perdoa-me, mas se calhar até foi melhor assim. um hábito tem sempre um fim. e se no início me doeu, agora só me irrita, e mais tarde nada me vai dizer.
se calhar um dia vais aparecer, julgando que o tempo não passou por nós. e é provável que te abra a porta sem agonia e desassossego. se calhar aí vais pegar-me ao colo e encostar-me á parede. mas agora não.
se um dia voltares e eu te abrir a porta, não digas nada. eu vou entender.
